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Por Andressa Suewellyn | Jornalista Colaboradora
No Brasil, falar de saúde mental tornou-se um discurso socialmente aceitável, mas ainda distante da prática. Pessoas que convivem com transtornos mentais continuam sendo tratadas como risco, e não como cidadãs. O diagnóstico frequentemente pesa mais do que o currículo, o preconceito se sobrepõe à competência e o Estado permanece ausente justamente onde deveria assumir responsabilidade.
Quem vive com transtornos mentais conhece bem esse roteiro. Basta a menção ao diagnóstico para que surjam o rótulo, a desconfiança e o afastamento. Pouco se pergunta sobre funcionalidade, histórico profissional ou resultados entregues. O julgamento vem antes, silencioso e cruel, sem espaço para escuta ou compreensão.
Mesmo quando há funcionalidade, profissionalismo e resultados concretos, o estigma persiste. Pessoas com diferentes condições de saúde mental estudam, trabalham, lideram equipes, tomam decisões e mantêm rotinas complexas. Ainda assim, são frequentemente tratadas como exceção em um sistema que prefere estigmatizar a compreender.
Esse preconceito não se limita ao convívio social. Ele se reproduz dentro de instituições, ambientes de trabalho. Muitas pessoas escondem seus laudos por medo de perder oportunidades, de serem desacreditadas ou reduzidas a um estereótipo. O que deveria garantir direitos e proteção acaba se transformando em motivo de exclusão.
A contradição se agrava quando o tema é tratamento. O acesso à saúde mental gratuita no Brasil é precário, desigual e insuficiente. Filas intermináveis, falta de profissionais, interrupções no acompanhamento e abandono institucional fazem parte da rotina de quem depende do sistema público. Exige-se estabilidade emocional de pessoas que sequer conseguem acesso contínuo ao cuidado básico.
Não se trata de um problema individual, nem de fragilidade pessoal. Trata-se de uma falha estrutural. Enquanto o Estado tratar a saúde mental como pauta secundária, o preconceito seguirá sendo normalizado. Enquanto políticas públicas não garantirem acesso digno ao tratamento, falar em equilíbrio emocional continuará sendo apenas hipocrisia institucional. E enquanto diagnósticos forem usados para desqualificar pessoas, qualquer discurso sobre inclusão permanecerá vazio.
Diagnóstico não é sentença social. Preconceito é escolha. E negligenciar a saúde mental da população também é, claramente, uma decisão política.



