Não são casos isolados: são práticas naturalizadas que seguem afastando mulheres dos espaços de poder
Por Suzana Agnello
Foto IA
O Brasil discute, no Senado Federal, a criminalização da misoginia. O debate é necessário, urgente e simbólico. Mas há um ponto incômodo que precisa ser dito com clareza: enquanto a lei avança no papel, a prática segue sendo tolerada — e, pior, normalizada — dentro das próprias instituições.
A misoginia na política não começa com um xingamento. Ela se constrói no cotidiano. Está na interrupção constante da fala de uma mulher. Está no riso atravessado quando ela se posiciona. Está na tentativa sistemática de reduzir sua autoridade, questionar sua capacidade ou desviar o debate para aspectos pessoais.
É um processo. E, justamente por isso, é tão eficiente.
Em Mato Grosso, o caso da prefeita Flávia Moretti escancarou o que muitas mulheres vivem diariamente na política. Ataques que ultrapassam o campo institucional, discursos que carregam desrespeito e uma tentativa constante de deslegitimação. Nada disso é novo — apenas ganhou visibilidade.
O problema não está apenas em quem ataca. Está, também, em quem assiste e silencia.
A ausência de reação firme dentro da Câmara Municipal de Várzea Grande, inclusive por parte de parlamentares mulheres, revela um dos aspectos mais preocupantes desse cenário: a naturalização. Quando o desrespeito passa a ser tratado como “normal”, ele deixa de ser exceção e passa a ser regra.
E é nesse momento que a misoginia se torna estrutural.
Há uma contradição evidente que o ano eleitoral escancara. Partidos correm para cumprir cotas, convidam mulheres, incentivam candidaturas e falam em renovação. Mas que ambiente é esse que essas mulheres encontram ao chegar? Um espaço que ainda testa, limita e, muitas vezes, hostiliza.
Não basta abrir a porta. É preciso garantir que haja condições reais de permanência.
A política brasileira não sofre com a falta de mulheres dispostas a participar. Sofre com a resistência em aceitá-las como protagonistas. E isso se manifesta não apenas nos ataques mais visíveis, mas nas pequenas práticas diárias que desgastam, isolam e silenciam.
Tipificar a misoginia como crime é um avanço. Mas é apenas o começo.
Porque o problema não é só jurídico — é cultural, institucional e, sobretudo, político.
Enquanto o desrespeito for relativizado, enquanto a violência for minimizada e enquanto o silêncio for mais confortável do que o posicionamento, a misoginia continuará operando com eficiência.
E, nesse cenário, não é a política que perde.
São as mulheres que são afastadas dela.



