OSCE acusa Rússia de doutrinar e militarizar crianças ucranianas em territórios ocupados

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Crianças entre os 13 e 18 anos, adolescentes passariam a receber treinamento com caráter militar

A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) acusou a Rússia de conduzir um programa sistemático de doutrinação e militarização de crianças ucranianas que vivem em áreas ocupadas por forças russas ou que foram levadas ilegalmente para o território russo.

As acusações constam em um relatório de mais de 140 páginas divulgado nesta quinta-feira (9). O documento foi elaborado a partir de investigações conduzidas pelo chamado Mecanismo de Moscou, instrumento da OSCE utilizado para apurar possíveis violações de direitos humanos.

Segundo a organização, as práticas identificadas não seriam episódios isolados, mas parte de uma política estruturada envolvendo educação, propaganda, pressão sobre famílias, mudanças administrativas e preparação de jovens para atividades militares.

A investigação foi aberta após 41 países membros da OSCE solicitarem a análise dos casos. O mesmo mecanismo já havia sido acionado em 2023, quando a entidade apontou suspeitas de deportação forçada de crianças ucranianas para a Rússia.

Treinamento militar desde a adolescência

De acordo com o relatório, crianças ucranianas sob controle russo seriam expostas desde cedo a conteúdos de propaganda de guerra e a ações voltadas ao enfraquecimento da identidade nacional ucraniana.

O documento aponta que, a partir dos 6 anos, menores seriam submetidos a atividades escolares com mensagens alinhadas ao governo russo. Entre os 13 e 18 anos, adolescentes passariam a receber treinamento com caráter militar, incluindo instruções sobre combate, manuseio de armas, operação de drones e técnicas de medicina tática.

A partir dos 16 anos, jovens ucranianos que vivem sob influência russa passariam a receber notificações relacionadas ao alistamento militar, que pode ocorrer quando completam 18 anos.

As estimativas apresentadas no relatório indicam que cerca de 1,6 milhão de crianças estariam entre os grupos mais afetados, principalmente em regiões ucranianas ocupadas pela Rússia, como Crimeia, Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia.

Outro grupo citado pela investigação é formado por menores que teriam sido retirados da Ucrânia e levados para a Rússia sem autorização das famílias ou das autoridades ucranianas.

Acusações de apagamento cultural

Além da militarização, a OSCE afirmou que haveria uma política de assimilação forçada, com pressão para que famílias adotem documentos russos e utilizem serviços públicos vinculados ao governo de Moscou.

O relatório aponta que moradores enfrentariam dificuldades para acessar educação, saúde, serviços bancários e oportunidades de trabalho sem documentação russa.

A entidade também afirma que pais seriam pressionados a matricular os filhos em escolas que seguem currículos definidos pelo governo russo, enquanto professores que recusam essas diretrizes poderiam sofrer punições, incluindo demissão e detenção.

Para autoridades ucranianas, o objetivo seria eliminar vínculos culturais e nacionais de uma geração de crianças.

“O objetivo é destruir a identidade de uma geração inteira de ucranianos”, afirmou o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, ao comentar o relatório. Segundo ele, a militarização, a doutrinação, a assimilação forçada e as deportações devem ser consideradas elementos centrais nas discussões sobre responsabilização internacional.

Rússia não participou da missão

A OSCE informou que o governo russo não colaborou com a missão de investigação e não apresentou informações para o relatório.

Até o momento, Moscou não divulgou posicionamento oficial sobre as acusações apresentadas pela organização.

O tema segue sendo um dos pontos mais sensíveis nas discussões internacionais sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, especialmente nas negociações envolvendo direitos humanos, crianças afetadas pelo conflito e possíveis acordos de paz.

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