Com geração solar equivalente a três Itaipus, o Brasil enfrenta uma crise inédita de excesso de oferta, mas a falta de investimento em armazenamento e modernização da rede impede que a abundância se traduza em energia mais barata para o consumidor.
Por Suzana Agnello
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O Brasil vive um paradoxo energético que escancara um problema menos técnico e mais político: há energia demais — e planejamento de menos. O alerta foi reforçado pelo ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, ao afirmar que o país enfrenta uma crise energética “ao contrário”: não por escassez, mas por excesso de oferta sem capacidade de absorção.
Os números impressionam. A geração distribuída solar já ultrapassa 43 GW de potência instalada — o equivalente a três vezes a capacidade da Itaipu Binacional, que possui 14 GW. São milhões de telhados convertidos em micro usinas, alterando de forma estrutural a matriz elétrica nacional.
O problema não está na expansão renovável. Está na ausência de políticas públicas capazes de acompanhar essa transformação.
O sistema elétrico brasileiro foi historicamente desenhado para administrar escassez hídrica, risco de apagão e acionamento emergencial de térmicas. Hoje, porém, enfrenta excedentes expressivos em horários específicos, sobretudo ao meio-dia, quando a geração solar atinge o pico. Sem armazenamento em larga escala e com atraso na regulamentação e nos leilões de baterias — considerados estratégicos para estabilizar a rede — parte dessa energia simplesmente não encontra destino.
A consequência é contraditória: o Operador Nacional do Sistema precisa limitar a geração renovável ou acionar usinas térmicas mais caras para manter a estabilidade da rede. Resultado? Custo operacional maior e pressão tarifária que, no fim da cadeia, recai sobre o consumidor.
Enquanto países que ampliaram suas matrizes renováveis investiram simultaneamente em digitalização de redes, tarifas dinâmicas e sistemas robustos de armazenamento, o Brasil tratou a geração distribuída como fenômeno marginal. Não era. Tornou-se estrutural — e sem coordenação adequada.
O mais inquietante é que, mesmo com matriz majoritariamente renovável e sobra de energia em determinados horários, o brasileiro não paga menos por eletricidade do que a média internacional. A estrutura tarifária engessada, os encargos setoriais crescentes e a falta de integração entre expansão da geração e modernização da rede impedem que a abundância se converta em energia mais barata.
O país conseguiu acelerar a transição energética pela força do mercado e do consumidor. O que faltou — e continua faltando — é estratégia estatal para integrar essa expansão ao sistema.
A pergunta que permanece é simples e incômoda: como um país que produz energia limpa em excesso ainda não conseguiu transformá-la em vantagem competitiva real?
Se a crise não é de falta, mas de gestão, o gargalo está menos na tecnologia e mais na política pública.



