Aprosoja alerta que liderança de Mato Grosso no agro não reflete situação financeira dos produtores

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Estado responde por 15% do Valor Bruto da Produção nacional, mas entidade destaca aumento dos custos, endividamento e restrição ao crédito rural

Mato Grosso manteve a liderança nacional no Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP), alcançando R$ 213,5 bilhões em 2026, o equivalente a 15% de toda a riqueza gerada pelo setor no país. Os dados foram divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e mostram que o Brasil atingiu R$ 1,4 trilhão em VBP, sendo R$ 908,8 bilhões provenientes da agricultura e R$ 510,2 bilhões da pecuária.

Apesar do desempenho expressivo, a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) afirma que os números não refletem necessariamente a realidade financeira enfrentada pelos produtores rurais.

Segundo a entidade, o VBP representa o faturamento bruto obtido dentro das propriedades rurais, calculado a partir do volume produzido e dos preços recebidos pelos produtores. No entanto, o indicador não considera despesas como financiamentos, juros, fretes, armazenagem, tributos, arrendamentos, investimentos, perdas climáticas e dívidas acumuladas de safras anteriores.

De acordo com a Aprosoja, interpretar o VBP como sinônimo de lucro pode levar a conclusões equivocadas sobre a situação econômica do setor.

A entidade destaca que o cenário atual é marcado pelo elevado endividamento rural. Dados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), do Banco Central, apontam que, até abril de 2026, a carteira ativa de crédito rural somava R$ 895,18 bilhões no Brasil. Desse total, R$ 186,52 bilhões estavam classificados como problemáticos.

Em Mato Grosso, a carteira de crédito rural alcançou R$ 108,03 bilhões, dos quais R$ 21,78 bilhões apresentavam algum tipo de comprometimento, incluindo operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas. 

Segundo a Aprosoja, os números revelam que aproximadamente 20% do crédito rural disponível no estado e no país enfrenta dificuldades de pagamento.

O diretor administrativo da entidade, Diego Bertuol, afirma que muitos produtores encontram obstáculos para renegociar dívidas junto às instituições financeiras.

“Soma-se a isso a dificuldade enfrentada para alongar dívidas junto às instituições financeiras. Mesmo com laudos técnicos, queda de preços, eventos climáticos e demonstração da capacidade de pagamento, muitos produtores encontram resistência na formalização dos alongamentos”, destacou.

Outro fator apontado pela entidade é o aumento dos custos de produção. Levantamento do Projeto Custo de Produção Agropecuária, desenvolvido pelo Senar-MT em parceria com o Imea, indica que o custo da produção de soja para a safra 2026/27 deverá crescer 3,21% em relação ao ciclo anterior, alcançando R$ 4.315,29 por hectare.

Entre os itens que mais pressionam os produtores estão fertilizantes e corretivos, com aumento de 5,4%, além dos defensivos agrícolas, que registraram alta próxima de 11%.

O estudo também aponta crescimento de 9,13% no ponto de equilíbrio da atividade, exigindo maior produtividade ou preços mais elevados para que os produtores mantenham a rentabilidade.

A entidade também chama atenção para a redução das concessões de crédito rural. Segundo a Aprosoja, entre julho de 2025 e abril de 2026, os financiamentos destinados à agricultura, excluindo Pronaf e CPR, recuaram cerca de 11% em comparação ao mesmo período anterior, passando de R$ 258,2 bilhões para R$ 229,4 bilhões.

A queda foi observada principalmente nas linhas de custeio, investimento e comercialização, que juntas registraram redução de R$ 40,6 bilhões.

Em Mato Grosso, levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostra que o financiamento da safra de soja 2025/26 está concentrado no sistema financeiro privado e em multinacionais. Juntos, esses segmentos respondem por mais de 66% dos recursos utilizados pelos produtores. 

Já os bancos que operam com recursos federais representam apenas 5,1% do financiamento, percentual inferior ao das revendas de insumos, que respondem por 5,3%.

Para o presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, a elevada produção registrada por Mato Grosso não elimina os desafios enfrentados pelos produtores.

“O quadro atual retrata que o problema não está na falta de produção. Mato Grosso segue produtivo, competitivo e essencial para o Brasil. A dificuldade está no desequilíbrio econômico da atividade: produzir custa cada vez mais, o crédito pesa no fluxo de caixa, os riscos climáticos aumentam e os preços recebidos nem sempre acompanham a elevação das despesas”, afirmou.

A entidade defende o avanço do Projeto de Lei 5.122/2023, que trata da reorganização das dívidas rurais, argumentando que a medida pode ampliar a capacidade de pagamento dos produtores e facilitar o acesso ao crédito.

Ao final da nota, a Aprosoja reforça que o VBP demonstra a importância estratégica de Mato Grosso para a produção de alimentos, fibras e energia no país, mas alerta que o indicador não deve ser utilizado para minimizar os desafios financeiros enfrentados pelo setor produtivo. Produzir mais, ressalta a entidade, não significa necessariamente estar em situação financeira confortável. 

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