O Nordeste não é inimigo de ninguém

PUBLICIDADE

Resultado das urnas não pode transformar nordestinos em alvo de preconceito; o caminho para mudar opiniões é informação, não agressão
Eu moro na Paraíba.

E, desde que cheguei ao Nordeste, passei a enxergar de perto uma realidade que, muitas vezes, é reduzida a números eleitorais e estereótipos nas redes sociais.

Depois do resultado das eleições, uma onda de ataques contra nordestinos voltou a tomar conta da internet. Pessoas são chamadas de ignorantes, preguiçosas, acomodadas ou responsabilizadas pelos resultados eleitorais da região simplesmente porque nasceram ou vivem aqui.
Isso é absurdo.

O Nordeste não é um bloco político. Não existe uma cabeça nordestina única, uma consciência nordestina única ou uma explicação única para o voto de milhões de pessoas.

Há, sim, uma desigualdade enorme de acesso à informação. E isso precisa ser discutido com seriedade.
Em muitas regiões, principalmente nas áreas mais afastadas dos grandes centros, o acesso à internet ainda é limitado.

Há comunidades onde a informação chega de maneira precária. Há pessoas que trabalham o dia inteiro, muitas vezes na informalidade, e não têm tempo, hábito ou condições de acompanhar política diariamente.

Também existe uma realidade social que não pode ser ignorada.

Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, fazem parte da vida de milhões de famílias. Ao mesmo tempo, existe uma enorme parcela de trabalhadores informais: gente que vende açaí na praia, comida, artesanato, produtos na rua, trabalha por conta própria e sobrevive de pequenos negócios.
Isso não significa que essas pessoas sejam incapazes de pensar, nem que sejam obrigatoriamente eleitoras de determinado partido.

Significa que existe uma realidade econômica diferente daquela vivida por parte da população dos grandes centros urbanos e das regiões mais desenvolvidas do país.

E é justamente por isso que informação importa.

Não estou falando de informação de direita ou de esquerda. Não estou defendendo que alguém venha ao Nordeste para ensinar as pessoas em quem elas devem votar.

Estou falando de informação de verdade.

Informação para que cada cidadão possa conhecer os fatos, comparar versões, entender as decisões dos governos, saber quanto custa uma política pública, conhecer seus direitos e também suas responsabilidades.

Uma democracia não se fortalece quando um lado chama o outro de burro.

Muito menos quando alguém olha para o mapa eleitoral e decide que milhões de pessoas devem ser tratadas como inimigas.
Se existe uma pessoa que acredita que o Nordeste está votando errado, que apresente argumentos. Que mostre números. Que explique propostas. Que converse.

Se existe uma realidade que precisa ser transformada, leve informação até ela.
Porque atacar o nordestino não muda um único voto.

Ao contrário: pode apenas aprofundar a divisão de um país que já está cansado de ser dividido.

Eu não nasci no Nordeste. Mas moro aqui. Caminho pelas ruas daqui, vejo a realidade daqui e convivo com pessoas daqui.

E uma coisa aprendi: por trás do resultado de uma urna existem pessoas. Pessoas que trabalham, criam filhos, enfrentam dificuldades, têm sonhos, medos, convicções e histórias completamente diferentes umas das outras.

O Nordeste não precisa ser tratado como um território a ser conquistado politicamente.
Precisa ser respeitado como parte do Brasil.

Se alguém quer mudar a opinião de um nordestino, converse com ele.

Se quer que ele conheça outra visão política, apresente essa visão.

Se acredita que ele está sendo mal informado, informe.

Mas não agrida.

Não humilhe.

Não transforme o lugar onde uma pessoa nasceu em motivo para odiá-la.

Brasil não vai mudar quando metade do país conseguir calar a outra metade.

Vai mudar quando conseguirmos fazer com que mais brasileiros tenham acesso à informação suficiente para formar suas próprias opiniões.


Talvez essa seja a discussão que realmente deveríamos estar tendo depois de uma eleição: não sobre qual região merece ser culpada, mas sobre como fazer a informação chegar a todos os brasileiros.

Porque o Nordeste não é o problema do Brasil.

O nordestino também não.

O Brasil é de todos nós.

SEJA PARCEIRO DO JORNAL CACERES EM FOCO – PIX CHAVE ALEATÓRIA – 76f2f79f-edea-4f50-8569-bdbb4cabb376

Mais recentes

PUBLICIDADE

Rolar para cima