Benefício concedido pela Polícia Militar de São Paulo a acusado de matar a própria esposa levanta debate sobre privilégios e credibilidade institucional
Por Suzana Agnelo
Foto IA
O caso envolvendo o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto escancara uma contradição difícil de ignorar: como uma instituição que atua diretamente no combate à violência contra a mulher justifica a concessão de benefícios integrais a um de seus membros acusado justamente de feminicídio?
Preso preventivamente desde março, o oficial foi transferido para a reserva com salário estimado em R$ 30 mil mensais — um direito respaldado por lei, segundo a Polícia Militar de São Paulo. Ainda assim, a legalidade do ato não tem sido suficiente para conter a indignação pública.
A vítima, a soldado Gisele Alves Santana, foi encontrada morta com um tiro na cabeça. A versão inicial de suicídio, apresentada pelo próprio marido, foi derrubada por laudos da Polícia Civil, que apontam indícios de feminicídio e possível manipulação da cena do crime.
Diante desse cenário, a concessão da aposentadoria integral levanta uma questão mais profunda do que o caso em si: existe, dentro da estrutura, uma espécie de blindagem quando o acusado veste farda?
Embora o processo administrativo de expulsão ainda esteja em andamento, o fato de o benefício ter sido concedido com rapidez — mesmo diante da gravidade das acusações — reforça a percepção de que há um tratamento diferenciado.
O episódio não apenas abala a confiança na instituição, como também lança um alerta incômodo: se nem dentro das corporações responsáveis por proteger as vítimas de violência doméstica há rigor imediato diante de suspeitas tão graves, que mensagem está sendo passada para a sociedade?
No fim, mais do que um caso isolado, a situação expõe um dilema institucional — entre cumprir a lei à risca ou responder à expectativa pública por justiça.



