Ataques direcionados à condição feminina da prefeita transformam embate político em possível caso de violência de gênero e colocam à prova os limites do decoro parlamentar.
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Por Suzana Agnello
Mais um episódio envolvendo possível violência política de gênero em Mato Grosso acende o alerta sobre os limites — cada vez mais ultrapassados — do debate público. A prefeita de Aripuanã, Seluir Peixer Reghin (União), protocolou pedido de cassação do mandato do vereador Luciano Demazzi (União) por quebra de decoro parlamentar, além de ingressar com queixa-crime por calúnia, injúria e difamação.
Segundo a prefeita, após tomar conhecimento de procedimento criminal, o vereador teria intensificado postagens ofensivas e discriminatórias direcionadas à sua honra e intimidade pessoal. O que poderia ser classificado como embate político ganhou contornos mais graves: ataques de cunho pessoal, com teor misógino e direcionamento explícito ao fato de ela ocupar o cargo de prefeita enquanto mulher.
A própria Seluir afirmou que as postagens ultrapassam o debate institucional e atingem sua condição feminina, motivo pelo qual formalizou o pedido de providências junto à Câmara Municipal. Paralelamente, a sociedade civil se mobilizou por meio de abaixo-assinado pedindo a cassação do parlamentar.
O caso ganhou repercussão dentro do próprio partido. A deputada federal Gisela Simona, integrante da executiva estadual do União Brasil Mulher e presidente do diretório municipal, protocolou representação formal solicitando a expulsão do vereador da sigla. O processo ético deve ser concluído entre 30 e 40 dias.
Em manifestação pública, a deputada classificou as postagens como machistas, misóginas e caracterizadoras de violência política de gênero — especialmente por vincularem as ofensas ao cargo ocupado pela prefeita e por tentarem diminuí-la em razão de sua condição de mulher. O posicionamento foi reforçado pela deputada federal Coronel Fernanda, que divulgou nota de repúdio e informou que a Procuradoria da Mulher da Câmara dos Deputados acompanhará o caso.
Em resposta, o vereador afirmou já ter solicitado sua saída do partido e declarou que pretende acionar Gisela na Comissão de Ética.
Um padrão preocupante
Este não é um episódio isolado. No ano passado, o então vereador Gilson da Agricultura, de Pedra Preta, teve o mandato cassado por quebra de decoro após ataques contra a prefeita Iraci Souza (PSDB). O histórico recente evidencia um padrão que não pode mais ser tratado como simples “excesso retórico”.
A violência política de gênero não se resume a divergências ideológicas. Ela se configura quando a crítica deixa de se concentrar em atos administrativos e passa a atingir a mulher enquanto mulher — questionando sua capacidade, sua honra ou seu direito de ocupar o espaço de poder.
E é justamente aí que mora o perigo institucional.Quando ataques misóginos são normalizados dentro das casas legislativas, o recado que se envia é claro: mulheres que ousarem disputar e exercer poder estarão sujeitas não apenas ao embate político, mas à desqualificação pessoal baseada em gênero.Isso afasta candidaturas femininas, fragiliza a representatividade e corrói a própria democracia.
O debate que precisa amadurecer
Críticas à gestão são legítimas. Fiscalização é dever do vereador. Oposição é parte essencial do sistema democrático. Mas misoginia não é instrumento político — é violência.Se confirmadas as condutas descritas, o caso de Aripuanã não será apenas uma disputa local, mas mais um teste para as instituições: até onde o Parlamento tolera ataques pessoais travestidos de discurso político?
O enfrentamento à violência política de gênero não pode depender de conveniência partidária. Trata-se de um compromisso com a democracia e com o respeito às mulheres que ocupam espaços de poder — conquistados com voto, legitimidade e respaldo popular.Porque quando o ataque deixa de ser político e passa a ser misógino, não é apenas uma mulher que é atingida. É o próprio ambiente democrático que é ferido.



