O assédio velado que a sociedade finge não ver
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Por Andressa Suewellyn
O assédio contra mulheres começa cedo. Não quando viramos adultas, mas quando o corpo ainda está em formação. Ele aparece quando saímos da escola, quando somos observadas, avaliadas e invadidas. Não é confusão. Não é coincidência. É aprendizado social: o de que o corpo feminino é território livre.Com o tempo, o assédio amadurece junto com quem o pratica. Troca o olhar explícito pela “piada inteligente”, a buzina pela frase ensaiada. “Ah, se eu tivesse dinheiro ”, “dinheiro não é tudo, tem que ter talento”. Não é humor. É código. É teste de limite. É a tentativa de constranger sem deixar provas, de invadir mantendo a própria reputação intacta.Não existe um perfil específico de agressor. O assédio vai do homem respeitado, aplaudido e admirado, até o desconhecido na rua. O que muda é o cenário, nunca a lógica. Quando uma mulher reage, o roteiro se repete: “é brincadeira”, “leva como elogio”. A sociedade não protege mulheres. Ela protege homens do desconforto de serem questionados.Quando nem ambientes vigiados, controlados e expostos ao país inteiro conseguem impedir o assédio, fica óbvio que o problema não é o lugar. É estrutural. Está no trabalho que silencia, na rua que observa, no transporte que invade, no riso cúmplice que absolve. O assédio não sobrevive sozinho. Ele precisa da omissão coletiva.Isso não é exagero. Não é falta de humor. É violência normalizada com aval social. E enquanto continuarem chamando assédio de brincadeira, continuarão ensinando mulheres a se calar e homens a se sentir confortáveis invadindo. Nomear essa violência incomoda porque desmonta privilégios. E privilégios, quando expostos, gritam.



